O Dilema de Quem Trabalha e Não Consegue Pagar as Contas
A situação de Ana Carla Dias de Oliveira, 49 anos, vendedora, reflete um cenário cada vez mais comum no Brasil. Endividada e com o nome sujo há cerca de sete anos, ela conta que um empréstimo de R$ 8.000, contraído logo antes de ser demitida, tornou-se um fardo impossível de carregar, mesmo após conseguir um novo emprego. Ela é apenas um dos rostos de milhões de brasileiros que, apesar de manterem seus empregos, lutam para honrar seus compromissos financeiros.
O caso de Ana Carla e de tantos outros trabalhadores com salários na faixa de até R$ 3.000, que se encontram inadimplentes, expõe a fragilidade econômica de uma parcela significativa da população. A dificuldade em quitar dívidas, mesmo estando formalmente empregados, levanta questões sobre a adequação dos salários à realidade do custo de vida e o acesso a crédito consciente.
A pesquisa “Radiografia da Inadimplência 2026”, divulgada pela CNDL e SPC Brasil, aponta que a inadimplência atingiu 44,4% dos brasileiros adultos em março deste ano, o índice mais alto desde 2015. O dado mais alarmante é que 82% dos inadimplentes estão empregados, desmistificando a ideia de que o calote está diretamente ligado à falta de trabalho. A reportagem conversou com alguns desses trabalhadores que participaram de um evento da Força Sindical em São Paulo.
A Luta Diária de Trabalhadores com Baixa Renda e Nome Sujo
Fabiana de Oliveira França, 47, atendente de lanchonete, ganha um salário mínimo e trabalha 8 horas por dia, de segunda a sexta-feira, sem benefícios além do transporte. “Ou a gente come ou paga as contas”, desabafa, explicando que o setor de alimentação paga muito pouco e não reconhece o trabalho. Ela está inadimplente com o cartão de crédito e, embora não seja a favor de usar o FGTS para pagar dívidas, reconhece que a situação é difícil.
Seu marido, Tiago Romão de Assis, 39, metalúrgico com salário de cerca de R$ 3.200, já utilizou o saque-aniversário do FGTS para quitar dívidas contraídas no governo anterior. “É uma saída para quem está afogado”, afirma, mas busca complementar a renda vendendo acessórios online, pois o salário não é suficiente para cobrir todas as despesas.
Falta de Reconhecimento e Benefícios Agravam a Inadimplência
Nilce Rosa Gomes da Silva, 45, auxiliar de produção em uma metalúrgica, relata que ganha menos de R$ 2.000 mensais e não recebe benefícios como plano de saúde, cesta básica ou vale-transporte. “Chega ao fim do mês e não sobra nada. É só o cartão de crédito que salva”, diz ela, que, apesar de ter sido atraída pelo sorteio no evento sindical, prioriza a defesa de melhores condições de trabalho.
A jornada 6×1, que Ana Carla critica por ser exaustiva, especialmente para mulheres com dupla jornada de mãe e dona de casa, também é um ponto de insatisfação. “A gente que é mãe e dona de casa não tem tempo para nada”, lamenta.
Desemprego e Dívidas: Um Ciclo Difícil de Romper
Roberto Gualberto, 55, que trabalhava como caixa, está desempregado e recebe auxílio-acidente após um acidente doméstico. Ele cuida da filha especial, enquanto a esposa, diarista, sustenta a casa. “Estou inadimplente, depois que fiquei desempregado, as dívidas acumularam e peguei empréstimo em banco”, conta, considerando aderir ao programa Desenrola para tentar quitar os débitos.
Bernadete Teixeira, 54, dona de casa e pensionista, está com o nome sujo há seis anos devido ao atraso no pagamento do IPTU de seu apartamento. Ela sustenta filhas e netas com a pensão de R$ 1.600 e precisa fazer empréstimos para sobreviver e suprir as necessidades da família.
Opiniões Divergentes Sobre o Uso do FGTS
Armando Alves, operário do setor de vidros, também possui dívidas, mas não pretende usar o Desenrola 2. Ele acredita que sacar o FGTS é benéfico para o governo e que o dinheiro deve ser guardado como uma reserva. Djanira de Carvalho, 60, consultora de cosméticos, tem uma visão diferente, afirmando que “todo mundo tem dívidas” e que já utilizou o FGTS, planejando fazer o mesmo novamente este ano, pois “ajuda muito”.