Terceira Via Presidencial: Um Caminho de Derrotas que Leva a Disputas Regionais
A trajetória de candidatos que almejam a Presidência da República e terminam em terceiro lugar nas eleições é, historicamente, marcada por um redirecionamento para palanques estaduais. Desde a redemocratização em 1989, nenhum nome que obteve a terceira colocação conseguiu, em tentativas posteriores, chegar ao cargo máximo do Executivo nacional.
Essa tendência se confirma para as eleições de 2026, onde cinco dos sete presidenciáveis que alcançaram o terceiro lugar nas últimas três décadas e meia já sinalizam caminhos para disputas regionais. Simone Tebet e Marina Silva, por exemplo, são pré-candidatas ao Senado por São Paulo, enquanto Ciro Gomes mira o governo do Ceará.
Heloísa Helena e Anthony Garotinho, também nomes que já figuraram em terceiro lugar em eleições presidenciais, preparam-se para concorrer a deputados federais pelo Rio de Janeiro. Conforme informação divulgada pela Folha de S.Paulo, essa movimentação reflete um padrão observado ao longo da história política brasileira, onde a polarização eleitoral dificulta a consolidação de alternativas fora do eixo principal.
O Legado de Terceira Via: De Brizola a Enéas Carneiro
A análise histórica revela que, mesmo em contextos políticos distintos, a terceira via presidencial frequentemente encontra refúgio em arenas estaduais. Leonel Brizola, após ser terceiro colocado em 1989, foi eleito governador do Rio de Janeiro. Já Enéas Carneiro, terceiro em 1994, tornou-se o deputado federal mais votado em 2002.
No entanto, os cientistas políticos ressaltam que o cenário atual, marcado pela forte polarização entre PT e bolsonarismo, difere dos períodos anteriores. Luciana Santana, cientista política e professora da UFAL, explica que a polarização se reflete no comportamento do eleitor, que tende ao “voto útil” na reta final da campanha.
Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva, corrobora essa visão, afirmando que a “terceira via” é um “desejo social, mas quase impossível como projeto eleitoral”. Ele compara a situação a um mercado com demanda, mas sem um produto capaz de atender às expectativas dos eleitores.
Simone Tebet e Marina Silva: Novos Horizontes em São Paulo
Simone Tebet, que em 2022 se apresentou como uma alternativa de centro, agora busca uma vaga no Senado por São Paulo, em uma articulação política que envolve o PT e o próprio Lula. Sua filiação ao PSB visa fortalecer sua candidatura na chapa paulista.
Marina Silva, igualmente pré-candidata ao Senado em São Paulo, tem um histórico de duas candidaturas presidenciais em que obteve a terceira colocação (2010 e 2014). Após ser eleita deputada federal em 2022 e assumir o Ministério do Meio Ambiente, sua volta às urnas é resultado de um acordo político com o PT.
Ciro Gomes e Anthony Garotinho: Estratégias Regionais em Cenários Complexos
Ciro Gomes, que disputou a Presidência quatro vezes, com dois terceiros lugares em seu histórico, agora negocia uma candidatura ao governo do Ceará, acenando inclusive para o campo bolsonarista. Seu desempenho em 2022, com 3,04% dos votos, foi o pior de sua trajetória presidencial.
Anthony Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro e terceiro colocado em 2002, também se volta para disputas regionais. Após tentativas frustradas de voltar ao governo fluminense e ter sua candidatura a deputado federal indeferida em eleições anteriores por questões judiciais, ele ensaia um retorno à Câmara Federal.
O Futuro da Terceira Via: Polarização e Voto Útil
As pesquisas de intenção de voto para 2026 indicam um cenário de continuidade da polarização, com Lula e Flávio Bolsonaro despontando como favoritos. Nomes como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e outros que tentam se projetar como terceira via aparecem com percentuais significativamente menores.
A dificuldade em agregar votos e a força do “voto útil” em um cenário de disputa acirrada tornam a consolidação de uma terceira via presidencial um desafio considerável. A história recente e os movimentos políticos atuais apontam para um caminho onde as aspirações presidenciais, quando não se concretizam, tendem a se fragmentar em batalhas regionais, buscando relevância no cenário político local.