Rolling Stones desafiam o tempo e a nostalgia com o lançamento de ‘Foreign Tongues’
Poucas bandas resistem ao teste do tempo como os Rolling Stones. Após a perda de Charlie Watts, a expectativa por um novo trabalho era incerta, mas o aclamado “Hackney Diamonds” em 2023 já sinalizava uma nova fase. Agora, “Foreign Tongues”, lançado nesta sexta-feira (10), consolida essa energia, provando que a banda ainda tem muito a dizer.
O grande trunfo de “Foreign Tongues” reside em sua habilidade de evitar as armadilhas da nostalgia. Em vez de se prender a referências passadas, os Stones tecem uma tapeçaria sonora que mescla blues, rock, country, soul e disco com uma vitalidade surpreendente, mantendo a identidade única da banda.
A produção de Andrew Watt, embora por vezes criticada por exageros em graves e compressão, consegue capturar a essência de uma banda tocando junta, algo que faltava em trabalhos recentes. Essa coesão é evidente desde a abertura com “Rough and Twisted”, um rock vigoroso com claras influências do blues de Chicago.
Mick Jagger, prestes a completar 83 anos, exibe uma performance vocal impressionante, alternando entre registros graves e falsetes que remetem a fases clássicas, como em “Emotional Rescue”, mas com uma roupagem moderna. Em “Jealous Lover”, essa versatilidade vocal brilha intensamente.
Jagger, o protagonista de “Foreign Tongues”
O vocalista Mick Jagger assume o protagonismo em “Foreign Tongues”, demonstrando uma vitalidade incomum para sua idade. Sua capacidade de transitar entre diferentes estilos vocais, do grave ao falsete, confere uma dinâmica especial a faixas como “Jealous Lover”, onde a escolha vocal se mostra particularmente eficaz.
Em “Mr Charm”, Jagger adota uma postura mais agressiva, enquanto “Ringing Hollow” o reconecta com as raízes country e honky-tonk que sempre marcaram o repertório dos Stones. Essa variedade vocal é um dos pilares que sustentam a energia do novo álbum.
Críticas sociais e o mundo contemporâneo
“Foreign Tongues” não se furta a comentar o mundo contemporâneo, ecoando a tradição dos Stones de refletir o espírito de seu tempo. Embora não atinja a força icônica de “Satisfaction” ou “Street Fighting Man”, o álbum aborda temas como autoritarismo, concentração de riqueza e polarização política.
Faixas como “Covered in You” criticam líderes autocráticos, e “Mr Charm” faz alusões diretas ao poder econômico e tecnológico. Essa preocupação temática impede que o disco se torne apenas um exercício de memória, mantendo-o relevante e engajado sem cair no tom panfletário.
Participações especiais e a memória de Charlie Watts
Mesmo uma banda do calibre dos Rolling Stones não dispensa participações especiais. Steve Winwood adiciona elegância aos teclados, Paul McCartney faz uma aparição discreta, Robert Smith traz sua atmosfera melancólica, e Chad Smith reforça o peso rítmico. Bruno Mars também marca presença, mas todos parecem cientes de que o foco principal permanece nos Stones.
O momento emocional do álbum, contudo, é a homenagem a Charlie Watts. Assim como em “Hackney Diamonds”, gravações inéditas do saudoso baterista aparecem em algumas faixas, como na explosiva “Hit Me in the Head”. Suas batidas inconfundíveis continuam sendo um elo vital com o passado e a alma da banda.
Pontos fortes e a eterna adoração ao rock
Apesar de alguns momentos que recorrem a fórmulas conhecidas, como em “Never Wanna Lose You”, que soa como uma releitura de “Some Girls”, “Foreign Tongues” demonstra a força e a vitalidade dos Rolling Stones. A banda encerra o disco com uma interpretação despojada de “Beautiful Delilah”, de Chuck Berry, reafirmando sua adoração ao blues.
Após tantas especulações sobre despedidas, os Rolling Stones provam que a festa está longe de acabar. “Foreign Tongues” é mais uma prova de que a banda continua adiando o encerramento de sua lendária trajetória, e o resultado é um álbum que, sem dúvida, ainda vale a pena ser ouvido.
FOREIGN TONGUES
Avaliação: Muito bom
Preço: Nas plataformas digitais
Autoria: The Rolling Stones
Gravadora: Universal Music Brasil