O Clã Bolsonaro e suas Conexões com o Crime Organizado: Um Legado de Controvérsias
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem exaltado a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, utilizando a medida como um trunfo eleitoral. No entanto, essa mesma família, incluindo o próprio Flávio e outros membros, já demonstrou proximidade com indivíduos acusados de envolvimento com o crime organizado, especialmente as milícias cariocas. Essa dualidade entre a retórica de combate ao crime e as ligações passadas levanta questionamentos.
A assessoria de Flávio Bolsonaro rebate as críticas, afirmando que a família não compactua com grupos criminosos e acusando o governo atual de ter recebido a esposa de um líder do Comando Vermelho. Contudo, o histórico do clã apresenta diversas situações que merecem atenção e análise detalhada, revelando um padrão de interações que contrasta com o discurso atual.
Este artigo relembra alguns dos episódios mais marcantes que conectam o clã Bolsonaro a figuras e esquemas ligados ao crime organizado, evidenciando a complexidade dessas relações e o impacto na percepção pública. As informações apresentadas baseiam-se em reportagens e investigações jornalísticas, como as divulgadas pela Folha de S.Paulo.
Homenagem a Adriano da Nóbrega, Ex-Policial e Acusado de Integrar Milícia
Um dos casos mais emblemáticos é a homenagem prestada por Flávio e Jair Bolsonaro ao ex-policial militar Adriano da Nóbrega. Em 2005, ambos visitaram Nóbrega na cadeia e lhe entregaram a Medalha Tiradentes, honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O Ministério Público apontava Adriano como integrante da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio Escritório do Crime.
Flávio, então deputado estadual, solicitou a homenagem, e Jair Bolsonaro chegou a afirmar em 2020 que a iniciativa teria partido de seu pai. Adriano da Nóbrega foi morto em 2020, após mais de um ano foragido, sendo acusado de diversos homicídios e envolvimento com máquinas caça-níqueis ilegais.
Emprego de Parentes de Miliciano e a Suspeita de “Rachadinha”
Além da homenagem, Flávio Bolsonaro garantiu emprego na Alerj, até 2018, para Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, respectivamente mãe e esposa de Adriano da Nóbrega. Ambas recebiam salários superiores a R$ 6.000 e, segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, estariam envolvidas em um esquema de “rachadinha”, prática em que parte do salário dos assessores é devolvida ao parlamentar.
Investigações apontaram que Danielle repassou cerca de R$ 150 mil a Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio. Desse montante, R$ 115 mil teriam sido transferidos através de contas ligadas a Adriano da Nóbrega, e também por meio de contas de restaurantes da família do ex-policial e de Raimunda. As investigações sobre a “rachadinha” foram posteriormente anuladas por decisões do STF e STJ em 2021.
Apoio a Milícias e Declarações Controversas
Jair e Flávio Bolsonaro já expressaram apoio a policiais suspeitos de violência e defenderam publicamente as milícias. Em 2018, Jair afirmou que em áreas onde a milícia é paga, a violência não ocorre. Flávio, por sua vez, minimizou a gravidade das milícias, sugerindo que moradores de comunidades dominadas por elas demonstram felicidade e, em 2007, descreveu as milícias como uma “nova forma de policiamento, entre aspas”.
Jair Bolsonaro também foi preso por integrar uma organização criminosa que tentou um golpe de Estado. Durante sua presidência, de 2019 a 2022, não houve ações para classificar grupos como o PCC como terroristas.
Seguranças da Campanha de Flávio Suspeitos de Participar de Quadrilha
Em agosto de 2018, a Operação Quarto Elemento prendeu policiais suspeitos de integrar uma quadrilha de extorsão. Entre os detidos estavam os gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira, policiais militares que teriam atuado na segurança da campanha de Flávio Bolsonaro ao Senado naquele ano. Eles são irmãos de Valdenice de Oliveira Meliga, ex-assessora e tesoureira do PSL na Alerj.
Na época, Flávio negou que os policiais fizessem parte de sua campanha, enquanto Valdenice afirmou que atuavam como voluntários. Uma foto publicada por Flávio em suas redes sociais em outubro de 2017 mostra o senador com Valdenice e os gêmeos, com a legenda: “Parabéns Alan e Alex pelo aniversário, essa família é nota mil!!!”.
Aliança com Rodrigo Bacellar e Proximidade com Daniel Vorcaro
O ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União Brasil), aproximou-se do clã Bolsonaro a partir de 2024, com o objetivo de se candidatar ao governo do Rio. Após encontros com Jair, Flávio e Carlos Bolsonaro, Bacellar recebeu uma medalha do clã. Posteriormente, ele perdeu o mandato e foi preso sob suspeita de integrar uma organização criminosa e vazar informações para o Comando Vermelho.
Ademais, áudios revelados pelo site The Intercept Brasil indicam que Flávio Bolsonaro mantinha contato com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, acusado de crimes como organização criminosa e lavagem de dinheiro relacionados a fraudes no Banco Master. Vorcaro teria combinado o pagamento de R$ 134 milhões para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Flávio reconheceu ter cobrado parcelas restantes, alegando que se tratava de recursos privados, e admitiu ter se encontrado pessoalmente com Vorcaro para “colocar um ponto final” na relação. A fraude do Master causou um prejuízo de pelo menos R$ 41 bilhões ao sistema financeiro nacional.