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Dólar sobe e Bolsa cai com cenário de instabilidade externa e interna

O dólar encerrou o dia em forte alta de 0,89%, atingindo R$ 5,209, impulsionado por um conjunto de fatores que aumentaram a percepção de risco para o Brasil. As sanções anunciadas pelo governo dos Estados Unidos contra o PCC (Primeiro Comando da Capital) e a persistente aposta em juros mais altos pelo Federal Reserve (Fed) foram os principais motores da valorização da moeda americana.

A volatilidade no câmbio e nos mercados financeiros se intensificou ao longo do dia. A moeda americana chegou a tocar o pico de R$ 5,217, refletindo as incertezas. No mercado de ações, a Bolsa de Valores brasileira acompanhou o movimento de cautela das praças internacionais e fechou com leve queda de 0,19%, registrando 171.688 pontos.

Esses movimentos ocorrem em um cenário onde as curvas de juros futuros também apresentaram alta, indicando que os investidores precificam um ambiente de maior custo de dinheiro. A combinação de fatores domésticos e internacionais pressiona os ativos brasileiros.

Sanções dos EUA ao PCC e impacto no mercado

O governo Donald Trump anunciou sanções contra dois brasileiros, três empresas sediadas em São Paulo e uma empresa portuguesa, sob a acusação de envolvimento em esquemas de lavagem de dinheiro para o PCC, a qual foi classificada como a “maior organização criminosa do Ocidente” pela administração republicana. Essa notícia, segundo analistas como Andrea Damico, economista-chefe da Buysidebrazil, “afetou o dólar e tudo foi junto”, aumentando a percepção de risco sobre os ativos do país.

No entanto, há divergências sobre a magnitude do impacto. Gustavo Okuyama, gestor de renda fixa da Porto Asset, sugere que as sanções podem gerar “ruído se aparecerem nomes relevantes envolvidos”. Já Márcio Riauba, chefe da mesa de operações da StoneX Banco de Câmbio, avalia que a notícia “não parece ser um gatilho relevante para sustentar a alta do dólar ante o real ou adicionar estresse ao mercado”.

Riauba complementa que sanções a empresas específicas “dificilmente justificariam uma disparada do dólar”, a menos que fossem sanções secundárias atingindo bancos ou instituições financeiras maiores, ou que houvesse conflitos diplomáticos com os EUA. Por ora, o impacto parece ser mais marginal e relacionado ao sentimento do mercado em relação ao Brasil.

Juros nos EUA e a atratividade dos Treasuries

O cenário externo também contribui para a pressão sobre o real. As falas de Kevin Warsh, novo presidente do Fed, reforçaram a postura combativa do banco central americano no combate à inflação. A expectativa de que o Fed possa manter ou até aumentar as taxas de juros nos Estados Unidos torna os títulos públicos americanos, os Treasuries, mais atrativos.

Essa dinâmica, explicada por Rebecca Nossig, analista de investimentos da Nomad, leva a uma redução “drástica da entrada de fluxo estrangeiro para a Bolsa brasileira”. Investidores internacionais tendem a preferir a segurança e a rentabilidade dos ativos americanos em detrimento de ativos de risco em mercados emergentes, como as ações brasileiras.

O índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas fortes, subiu 0,2%, a 101,38 pontos, refletindo essa tendência global. Dados sobre a criação de empregos no setor privado dos EUA, embora abaixo do esperado (98 mil vagas), não foram suficientes para reverter o diagnóstico de que o Fed seguirá uma política monetária mais apertada.

Pesquisa eleitoral e o receio do mercado

Adicionalmente, uma nova pesquisa eleitoral no Brasil, realizada pela Atlas/Bloomberg, apontou a vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno. Lula aparece com 48,8% das intenções de voto, contra 42,3% de Flávio Bolsonaro.

O mercado financeiro, em geral, nutre desconfiança em relação a um eventual governo Lula, temendo que isso possa dificultar o controle das contas públicas e, consequentemente, da inflação. Essa apreensão pode forçar a manutenção da taxa Selic em patamares elevados, impactando o custo do crédito e o investimento no país.

Apesar de alguns investidores estarem se posicionando para um possível corte na Selic nas últimas semanas, o cenário eleitoral adiciona uma camada de incerteza que se soma aos fatores externos, contribuindo para a pressão sobre o real e a queda da bolsa.

Perspectivas para o mercado de câmbio e juros futuros

As curvas de juros futuros refletiram o aumento da incerteza. A taxa do DI para janeiro de 2029, por exemplo, atingiu 14,23%, em alta de 0,16 ponto percentual. Na ponta longa, a taxa do DI para janeiro de 2035 também subiu, fechando em 14,33%, com elevação de 0,16 ponto percentual.

Esses movimentos indicam que o mercado está precificando um cenário de juros mais altos por mais tempo, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. A combinação de fatores como as sanções ao PCC, a política monetária americana e o cenário eleitoral doméstico continuará a ditar o ritmo dos mercados nos próximos dias.