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Senador Ciro Nogueira e a venda de fazenda para offshore em paraíso fiscal levantam suspeitas

Uma empresa ligada ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) vendeu uma fazenda de R$ 18,7 milhões no Piauí para uma offshore sediada nos Emirados Árabes Unidos. A transação, ocorrida em março de 2025, é assinada por um advogado que representa o parlamentar em mais de 20 processos judiciais, levantando questionamentos sobre a origem e os beneficiários finais da operação.

A propriedade rural, localizada no município de Pedro II (PI), foi adquirida pela Arraf International, uma empresa criada apenas dois meses antes da venda. O endereço da offshore é uma caixa postal na zona franca de Sharjah, conhecida por sua opacidade e por ser um paraíso fiscal, onde não há registro público de sócios.

As informações sobre esta venda surgem em um momento em que Ciro Nogueira é alvo de investigações da Polícia Federal. As apurações indicam que o senador teria recebido dinheiro e outras vantagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Conforme a PF, Vorcaro transferiu ao menos R$ 6 milhões ao senador entre 2024 e 2025, por meio de empresas ligadas a ele. Os detalhes dessas transações e a venda da fazenda para a offshore são parte de um contexto investigativo mais amplo.

Detalhes da transação e o papel do advogado

A escritura que formaliza a venda da fazenda pela Fazendas Reunidas Nogueira Lima, empresa do senador, para a Arraf International, foi datada de 27 de março de 2025. Gustavo Frazão, que representa a offshore, não apenas advoga para a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, pertencente ao senador, mas também é funcionário comissionado na Prefeitura de Teresina, administrada pela mãe do parlamentar, Eliane Nogueira Lima.

A escolha dos Emirados Árabes Unidos como sede da offshore não é por acaso. A zona franca de Sharjah é considerada a mais opaca do país, permitindo que empresas pertençam integralmente a estrangeiros sem a necessidade de sócios locais. Isso dificulta o rastreamento da propriedade real dos ativos.

Investigações da Polícia Federal e conexões financeiras

A venda da fazenda ocorre em paralelo com as investigações da Polícia Federal sobre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A PF suspeita que Ciro Nogueira tenha recebido quantias milionárias e outras benesses de Vorcaro, em troca de supostas defesas de interesses do empresário no Congresso Nacional. Uma das suspeitas envolve a apresentação de uma emenda que aumentaria a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Documentos obtidos pela PF revelam uma relação de grande proximidade entre Nogueira e Vorcaro, incluindo hospedagens em hotéis de luxo e repasses financeiros. A empresa CNLF, ligada a Ciro Nogueira, teria sido o canal para o recebimento de parte desses pagamentos, tendo adquirido imóveis de luxo em São Paulo no período em que o senador teria atuado em favor de Vorcaro.

Outras transações e a defesa do senador

Esta não é a única operação de Ciro Nogueira envolvendo empresas sediadas no exterior. A CNLF, empresa do senador, também vendeu um apartamento em São Paulo por R$ 6,5 milhões em abril de 2025 para a Aliqum Participações, uma offshore das Ilhas Virgens Britânicas, outro paraíso fiscal. O representante legal da Aliqum é Carlos Santana, amigo do senador.

Em nota divulgada por sua assessoria, o senador Ciro Nogueira afirmou que “nem ele nem ninguém da família dele é proprietário de nenhuma empresa fora do Brasil”. Ele também declarou que sua mãe é a dona da Fazendas Reunidas, mas dados da PF indicam que o senador detém 99% do capital da empresa. O irmão do senador, Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, que também é investigado pela PF, administra a CNLF e atua como um suposto “laranja” do senador.

Histórico de transações entre empresas do senador

Documentos levantados pela reportagem indicam que empresas ligadas a Ciro Nogueira realizam frequentes operações entre si. Um exemplo é a venda de um apartamento de 134 m² em São Paulo pela Fazendas Reunidas Nogueira Lima para a CNLF por R$ 1,4 milhão em outubro de 2025. A CNLF havia comprado o mesmo imóvel cerca de um ano antes por R$ 650 mil, justificando a diferença de preço com uma reforma.

O senador negou em maio, quando foi alvo da PF, ter reproduzido a “emenda Master” a pedido de Vorcaro e ter recebido dinheiro ilícito. No entanto, as investigações da Polícia Federal continuam a desvendar as complexas relações financeiras e empresariais que envolvem Ciro Nogueira.