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A abstenção eleitoral crescente se tornou um desafio para o TSE e entra no cálculo das campanhas na disputa presidencial.

A estudante universitária Ana Luiza Souza Ferreira, 20, de Governador Valadares (MG), exemplifica uma parcela crescente de eleitores que opta por não comparecer às urnas, mesmo que isso signifique pagar multa à Justiça Eleitoral. A desilusão com promessas não cumpridas e a sensação de que o voto individual faz pouca diferença são motivos frequentes para essa decisão.

Esse fenômeno, que tem se intensificado desde 2002, quando a abstenção foi de 17,7% no primeiro turno, agora representa um fator estratégico para as campanhas. Dados da Justiça Eleitoral e pesquisas de intenção de voto indicam que o perfil de quem se abstém pode impactar diretamente o resultado das eleições, especialmente na acirrada disputa presidencial.

Especialistas apontam que o presidente Lula (PT), em busca da reeleição, pode ser o mais afetado pelo aumento da abstenção, já que o perfil desses eleitores se assemelha mais ao do petista. Contudo, o maior engajamento feminino, eleitoras majoritariamente alinhadas a Lula, pode atenuar esse impacto. Conforme informação divulgada pela Folhapress, a abstenção em 2022 atingiu 20,9% no primeiro turno e 20,5% no segundo turno, um patamar que exige atenção das campanhas.

O Perfil do Eleitor que se Abstém e Seus Impactos

Cientistas políticos não dispõem de pesquisas consolidadas sobre o fenômeno, mas levantam hipóteses para o crescimento constante da abstenção. Dificuldades de acesso aos locais de votação, desinteresse pela disputa política e desatualização do cadastro eleitoral são apontadas como causas. A punição branda pelo não cumprimento do voto obrigatório, como a multa de R$ 3,51 por turno e o cancelamento do título após três ausências consecutivas, contribui para que a abstenção se torne um comportamento eleitoral.

Jairo Nicolau, cientista político e professor da FGV, destaca a desproporcionalidade da punição: “Se você não entregar a declaração do Imposto de Renda no dia, você sabe qual é a implicação disso para a sua vida. Agora, se você não votar e faltar três eleições sucessivas, você sai do cadastro”. A multa, que não é reajustada há 30 anos, e a facilidade para justificar ausências, segundo ele, tornam o não comparecimento uma opção menos custosa pessoalmente para muitos eleitores.

Em 2025, 5 milhões de títulos de eleitor foram cancelados por ausências em três pleitos seguidos. Felipe Nunes, CEO da Quaest, observa que a queda nos votos inválidos (nulos e brancos) em 2022, combinada com a alta abstenção, sugere que os eleitores estão aprendendo a usar o sistema a seu favor, transformando a abstenção em um ato político quando o descontentamento com as opções é grande.

Estratégias e Preocupações das Campanhas

O Partido dos Trabalhadores (PT) reconhece a abstenção como um ponto de atenção. Jilmar Tatto, coordenador do Grupo de Tática Eleitoral do PT, afirma que o partido está ciente do perfil de baixa renda dos eleitores que mais se abstêm e planeja ações direcionadas. No entanto, ele ressalta que a principal responsabilidade pela conscientização do eleitorado é do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Por outro lado, o cientista político Antônio Alkmin sugere que as campanhas podem, inclusive, trabalhar para desestimular o comparecimento de eleitores do campo adversário. Ele cita o exemplo da Cambridge Analytica em El Salvador, que teria utilizado estratégias para estimular a abstenção entre jovens com discurso antissistema, demonstrando como o fenômeno pode ser explorado em diferentes direções.

Desigualdades Territoriais e Sociais na Abstenção

A abstenção não é um fenômeno homogêneo. Ela varia significativamente entre regiões e grupos sociais. Em 2022, o município de Maraã (AM) registrou a maior abstenção no segundo turno, com 45,5% dos eleitores ausentes. Governador Valadares (MG) teve 27,5% de abstenção entre cidades com mais de 200 mil eleitores.

Dados do TSE indicam que a abstenção é maior entre eleitores com menor escolaridade, perfil mais alinhado à esquerda. Contudo, as mulheres, que majoritariamente votaram em Lula, apresentaram menor taxa de abstenção (19,96% contra 21,98% dos homens no primeiro turno). Jairo Nicolau reforça que uma alta abstenção feminina seria prejudicial à esquerda, podendo alterar resultados eleitorais significativos.

A queda na abstenção entre o primeiro e o segundo turnos em 2022 foi mais acentuada entre os menos escolarizados, mostrando que a mobilização pode ser mais eficaz em determinados segmentos. O TSE, por sua vez, não se manifestou sobre planos para aumentar a participação eleitoral nas próximas eleições.